Moody's baixa rating da Ginjinha do Rossio

Ginjinha-do-Rossio ameaçada pela dívida grega

Aa2 deixa Sr. Manuel em apuros

Esta é a segunda vez que a agência norte-americana mexe no rating da Ginjinha depois de, há seis meses, lhe ter tirado o triple A. Também o outlook se agravou, de estável para negativo. De acordo com a Moody’s, “a Ginjinha ainda tem uma situação financeira relativamente sólida. No entanto, está susceptível a riscos mais elevados no médio prazo.”

“Uma vergonha! Desde 1935 que esta casa ostentava orgulhosamente o triple A rating. 1935! Desde o tempo do meu avô! Estou em crer que, se não éramos das poucas, éramos a única a ostentá-lo!”, diz-nos o proprietário e único funcionário, o Sr Manuel: “Este corte era absolutamente desnecessário, mesmo num contexto de enfraquecimento da economia global e com poucas perspectivas de crescimento. Penso que está na altura de se criar uma agência de notação europeia.”

O outlook negativo dado à Ginjinha foi justificado pela Moody’s como sendo um aviso sobre os perigos que aí vem, já que “mesmo que de forma indirecta, o negócio do licor de ginja em Portugal apresenta elevada exposição à dívida grega.”

Esta argumentação origina ainda mais protestos do Sr Manuel, para quem “a Ginjinha sempre pagou as suas contas e sempre recebeu dos seus credores, mesmo dos gregos que moram ali em baixo”, não vendo portanto razões para “este ataque especulativo dos mercados”.

Os gregos em questão são Sotirios e Vani Vanikakis, vizinhos do prédio número 2. Sóti, como gosta de ser chamado, abre-nos a porta de pijama, em plena hora de almoço. Pede-nos para falarmos baixinho pois “a Vani ainda está a descansar”.

Sóti é reformado da função pública grega, para a qual trabalhou com dedicação até ao fim da sua carreira de cinco anos. “Não pude sair antes”, diz-nos. “Cada ano a menos de trabalho, sacavam-me logo 2% do bónus a que tenho direito por a minha mãe também ter sido funcionária pública – uma vergonha… Por isso, tive mesmo de trabalhar até ao fim, mesmo se isso implicou para mim e para a minha família um grande desgaste físico e emocional.”

Reformado desde 2010, Sóti tem agora 28 anos de idade e espera gozar o resto da vida com a Vani, “a descansar”, com a satisfação de quem merece, pelo contributo que já deu “a esta nossa sociedade.” Sóti garante que nasceu para ser funcionário público porque gosta muito de servir os outros e que “se pudesse, até continuava a trabalhar, mas a minha idade é que já não mo permite. Cinco anos na alta pressão do funcionalismo público!…”

Alheio à crise grega, e sempre falando baixinho “para não despertar Vani”, Sóti diz que espera viver para sempre em Lisboa. Mostra-se preocupado com o downgrade da Ginjinha, mas acredita que não há perigo de contágio. “Desde que a Grécia me continue a pagar a reforma como até aqui, como me é devido, aliás, porque vendo bem foi uma vida inteira a descontar… portanto, desde que me paguem, pagarei sempre ao Sr Manuel!”

Mas o Sr. Manuel estava imparável: “Veja! Temos os Estados Unidos a perder o triple A… Portugal com um rating abaixo do meu e um outlook que é uma desgraça… os gregos, enfim, é a rebaldaria que se sabe… Não lhes chega? Porque é que me haviam de mexer no rating cá da casa?… Acho injusto!” E continua, explicando que este corte dificulta o seu acesso aos mercados, tornando-lhe o dinheiro mais caro. “O crédito fácil alimentou a nossa febre expansionista, admito. Aumentámos grandemente a superfície até chegarmos aos actuais 4 metros quadrados. Foi sempre a crescer, sempre à custa do dinheiro barato. Agora, sem fundos, não sei como é que me vou safar… Podia tentar um layoff, mas o único funcionário sou eu… Ou podia tentar vender a ginjinha mais cara, sei lá… mas quem é que ma compra? Além disso, tive aí a ASAE à perna e agora já nem me deixam lavar as casas-de-banho com creolina… Toda esta pressão sobre o grande capital… é irrespirável!”

O Sr. Manuel exige ainda saber “Afinal, quem é que manda na Moody’s?”. É que no diz-que-diz do pequeno mundo do licor de ginja, especula-se que esta agência terá como acionista maioritário “aquela corja da Ginja de Óbidos!”

A Última Ginjinha?


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