Jorge Jesus, por entre um golo e outro

Jorge Jesus

“Quero ser Rei de Todos os Venezuelanos.”

Jorge Jesus está em alta desde que chegou ao Benfica. Até apetece ir falar com ele! Saber o que lhe vai na alma, as coisas que ele sabe para além da táctica. Os adeptos estão convencidos e não é para menos. A equipa é boa, joga bem, ganha ainda melhor. E ainda recentemente deu mais uma teca. A vítima também não podia ter sido mais bem escolhida: o Sporting.

A Turma do Mónico foi falar com ele, no dia a seguir ao jogo de Alvalade. Disse-nos que “para nos encontrarmos, só se for no Cândido… hoje vou tar lá… é o snack-bar na esquina, o Cantinho do Cândido… hoje tou lá. Vou pra lá a seguir ao treino.”

Encontramos Jorge Jesus no local estabelecido.

Não digo que seja a minha casa mas, a seguir ao estádio da Luz, é o sítio onde sou mais igual a mim próprio”, confessa-nos. “Aqui, não passa uma hora que eu não diga uma laracha.

Por entre golos de cerveja, Jorge Jesus vai mostrando a sua alegria: “Ah, vou dar quatro golos na cerveja… [glu glu glu glu] Quatro golos ao Sporting, quatro golos na cerveja!…”

Não conhecíamos esta tradição. Quisemos saber como era antes do Benfica. “Sempre fiz isto, mas antes praticamente não bebia nada. O Estrela da Amadora era uma tristeza. Marcava um golo por mês… não sei se está a ver a tristeza… Mas isto agora é um espectáculo… uma época de muita cerveja. [glu glu glu glu]”

E foi assim nos 8-1 ao Setúbal?

[glu glu glu glu] Comigo é cada golo do Benfica, cada golo na cerveja. Esse dia do Setúbal foi um grande dia, mesmo!… 8-1, cum camandro!… não parava… Mas aí fiquei um bocado à rasca, por ter de dar sempre oito golos de seguida…

Mas e qual é o limite? Quantas cervejas?

Mas quais limite? Não há cá limite nenhum… não há limite no número de cervejas. No dia da cabazada ao Setúbal, cum camandro!… E nos cinco contra o Everton? Isto são as que eu me lembro…

E não lhe fará mal? Tanto álcool… e o exemplo que dá aos seus jogadores?

Só sou mau exemplo, se eles me seguirem. [glu glu glu glu] Se não seguirem, não sou mau exemplo. E eu tenho muitas outras virtudes… por exemplo, a forma que eu uso para me exprimir quando falo ou os meus cabelos castanhos assim sobre o longo. E a minha forma de ser [glu glu glu glu] viril.

Concordamos, mas não poderão os jogadores do Benfica ser influenciados? Afinal, não deixam de ser jovens, quase todos com menos de 30 anos. Jorge Jesus conhece-os bem e assegura:

[glu glu glu glu] Quem joga no Benfica tem de estar preparado para ser capaz de lidar com a pressão de separar a minha profissão da minha forma de ce-le-bra-ção. Não sei se está a perceber… Quanto à quantidade de álcool, não sei… Vou perguntar ao Dr. Vilarinho [glu glu glu glu] a partir de quanto é que faz mal.

Por entre um golo e outro, vamos entrando no mundo de Jorge Jesus.

E, estando o Benfica nesta onda de sucesso imparável, até onde pode chegar o treinador?

Olhe… [glu glu glu glu] o Benfica está em alta e eu, como mestre e autor desta mesma alta… tenho mercado, sou cobiçado. Isto é normal. Eu por enquanto [glu glu glu glu] tenho contrato. Depois, logo se vê. Claro que [glu glu glu glu] se me perguntar qual é o passo seguinte… isso aí…

Qual é o passo seguinte?

Oiça, este clube… [glu glu glu glu] o Benfica, isto está-se a tornar pequeno demais para mim… Eu aqui é isto. Já não chego a mais lado nenhum… Sinto que aqui estou a definhar. Veja quantas pessoas no mundo andam aí a gritar o meu nome: Jesus! Jesus!… cum camandro… principalmente aos Domingos: Jesus! Jesus! Em todo o mundo Cristão… Muitas em brasileiro, pá: Jézuz! Jézuz! Oiça, eu quando me safar disto, quero uma coisa mesmo à séria, quero ser o líder dum país… um pequeno país na América Latina. [glu glu glu glu]

Mas… dum pequeno país? Como assim?

Pequeno, para começar. Estou a pensar na Costa Rica ou no Panamá e depois ir alargando. Vou levar Jesus àquela gente.

Como pretende chegar ao poder? Pela via democrática ou pela força?

[sorrindo e comendo um tremoço] Tu realmente, deves pensar… Ouve, eu não cheguei onde cheguei a dar a táctica antes do jogo… [glu glu glu glu] Mas eu respeito as leis e só irei pela força se a via democrática falhar.

E com quem conta para esta aventura?

Não é uma aventura. É o meu trabalho. É como uma missão. [glu glu glu glu] Com quem conto? Queria levar os melhores doze. Meti este número na cabeça, por causa dum livro que eu ando a ler. Mas só vão os melhores e com condições para triunfar: o Cardozo, o Di Maria, o Javi Garcia, o Pablo Aimar, o Maxi, o Saviola… Estes vão de certezinha absoluta. Falam a língua dos povos de lá, o que pode ajudar na minha integração e na disseminação da minha palavra.

E quais são as suas hipóteses? Não será difícil?

Não sejas palerma, pá. Eu tenho tido sucesso em tudo na vida. Olha o que eu fiz ao Benfica, de moribundo, a foribundo. Olha o que eu fiz aos meus cabelos: os anos passam e o branco desaparece. Além disso, eu sou um líder e sinto que estou destinado a uma coisa em grande. Neste momento, lidero 6 milhõezecos de Benfiquistas em Portugal, mais uns 10 milhõezinhos no estrangeiro [glu glu glu glu]. Na América Latina vou pelo menos duplicar este número só no primeiro ano. Mas a ambição é de ir sempre aumentando.

Até onde, Jorge Jesus?

Até chegar a Rei de Todos os Venezuelanos. Entre eles farei a minha casa. Sempre gostei duma boa arepa e não há como uma arepa feita em casa.

 


[publicado originalmente em Magazon]


FUTEBOL

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