Abel Xavier, Assalam-o-Alaikum!

Abel Xavier

De Cristo a Maomé.

Estava mesmo para escrever uma carta ao Abel Xavier mas resolvi escrever aqui, porque não tenho a morada dele. Nem sei onde viverá hoje, aliás, depois de ter vivido em 10 países diferentes…

O Abel Xavier não teve sorte com os Portugueses. Tudo se passou no jogo Portugal-França, nas meias-finais do Euro2000. Desviou a bola com a mão dentro da grande área e, para o árbitro, não havia nada a fazer, senão marcar penalty. O Abel diz que se tivesse sido um francês a fazer aquilo o árbitro não tinha marcado… Talvez, mas aí é que o árbitro se teria _mesmo_ enganado. Marcando penalty contra Portugal, o árbitro fez o que era certo. Infelizmente, claro, para todos os Portugueses porque “a malta não merecia aquilo, pá” e, sobretudo, porque “a malta esforcou-se tanto, pá”. Foi chato, claro que foi. Para todos os Portugueses e mesmo para alguns elementos mais liberais da Nação Nortenha.

Mas o pior resultado deste evento no ano 2000 foi mesmo estragar a imagem do Abel Xavier em Portugal. A partir desse momento, em Portugal, o Abel Xavier passou a ser considerado um jogador medíocre. Isto, mesmo jogando em grandes clubes, como Liverpool, Roma ou Galatasaray. Quantos jogadores medíocres se podem gabar disto? Lembro aos mais distraídos que grandes jogadores como o Miguel Veloso e o Liédson ainda não conseguiram melhor do que jogar no Sporting!

Mas adiante…

Quando saíu do Liverpool para o Galatasaray é evidente que o Abel Xavier teve de se justificar, porque uma certa malta aproveitou a deixa para uma vingançazinha “por tudo o que este gajo nos fez sofrer no ano 2000”. O Abel Xavier, ao escolher jogar no Galatasaray, não ia para um grande clube Europeu (que, curiosamente, até tinha ganho a Taça UEFA no ano 2000). Não, a ida para o Galatasaray era a oportunidade de ouro para mandar umas bocas ao Abel Xavier porque “o gajo tinha de pagar por tudo o que nos fez”.

O Abel, sempre boa onda, lá se explicou e disse que ia porque queria sempre saltar de país para país, porque era a oportunidade que tinha de conhecer culturas novas, lugares novos, pessoas novas. Lembro-me bem de ele ter dito que era “uma escolha de vida”, ou algo parecido. Mas, claro, que para a tal malta, isto era só conversa, para ele se desculpar. Porque, “coitado, o Abel Xavier não consegue melhor do que jogar no Galatasaray” (que tinha ganho a Taça UEFA “por sorte”, claro).

É que para muitos, jogador de futebol, jogador que se preze, tem de “jogar na Inglaterra, ou na Espanha”. E na Itália?, “Sim, mas só se for no Inter. Agora, na Turquia?…” E não poderia valer a pena, nem que fosse para viver em Istambul? “Não.”

Mas é claro que valia e está bem claro que valeu. Agora que o Abel Xavier deixou de jogar, vê-se que é mesmo uma pessoa diferente e não só no mundo da bola. Há coisas nele que me parecem mesmo raras e boas:

A primeira, e mais importante, foi por ter escolhido a sua religião. Como é sabido, pouca gente escolhe a religião que tem. A religião é-nos ensinada normalmente pela família e pelo meio. É um pouco como a língua, acho eu. Mas como se pode e deve conhecer outras línguas, também se pode e deve conhecer outras religiões. Só assim se pode escolher a que se prefere. E ajuda a compreender como, para tanta gente, a nossa escolha não parecerá a melhor.

Tomara a muita gente conseguir, sequer, pensar em fazer o que o Abel Xavier fez. E ele não só teve o privilégio de ter escolhido a sua religião, como ainda fala 6 línguas (seis!).

Outra coisa que o distingue de outros grandes jogadores é a simplicidade. Ao contrário do que o seu cabelo amarelo pode à primeira vista sugerir, o Abel Xavier é de uma simplicidade e uma humildade muito naturais. Pelo menos assim parece – quando fala, não está a tentar convencer ninguém. Está a falar porque acha que é assim e porque lhe perguntaram.

Até nisto se diferencia de outros jogadores. Quando a grande maioria fala, não apetece nada ouvi-los (como ao Cristiano Ronaldo e ao seu “pense que”). Quando o Abel Xavier fala, apetece ouvir – ele sabe falar e fala bem.

Por exemplo, se pedirmos ao Cristiano Ronaldo para dizer uma frase que contenha a palavra eventualmente, “pense que” ele vai responder que desconhece o significado da palavra contenha. E se lhe pedirmos que use a palavra “fundamentalmente”, “pense que” ele pode mesmo chamar o Sá Pinto.

Mas o Abel Xavier não só emprega palavras como eventualmente ou fundamentalmente, como também se exprime com tiradas como “suporte emocional” ou “a minha querida avó”. E isto é em público. E sem se rir! (Nota: muito embora conheça o significado de a minha querida, “pense que” o Ronaldo preferiria “a minha querida mamã”.). Há poucos no mundo da bola que falem tão bem como o Abel Xavier e que não tenham vergonha de mostrar um lado menos, “pense que”, viril.

Por isso, hoje queria dizer que gosto mais do Abel Xavier do que da maioria dos jogadores de futebol e que acho que já era tempo de quem ainda guarda azedume, um azedume que só faz mal ao fígado, se deixar de tretas e dar de uma vez os parabéns ao Abel Xavier por conseguir sobressair não só enquanto foi um grande jogador, mas sobretudo agora que já deixou de ser.

Assalam-o-Alaikum, Faisal Xavier!


[publicado originalmente em Magazon]


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