As Contas dos Clubes

Contas dos Clubes

Os clubes devem vender jogadores sempre que consigam.

Estive a ler os relatórios anuais das SADs dos três maiores clubes portugueses. As contas mostram que os três têm problemas semelhantes e que os três precisam de vender jogadores para se aguentar.

Começando pelo Benfica, o relatório de 2008/2009 mostra que teve um prejuízo de 35 milhões de euros. Isto não compara nada bem com os anos anteriores: a média dos últimos quatro anos tinha sido um lucro de 1.5 milhões de euros por ano.

Destes 35 milhões de prejuízo, 17 milhões estão, de forma geral, relacionados com o valor dos passes dos jogadores (compras, vendas, amortizações, etc.), ou seja, estão relacionados com o _mercado de transferências_. Quer dizer que, só neste capítulo, o Benfica teve um resultado negativo no ano passado de cerca de 17 milhões de euros.

O Benfica gastou dinheiro em jogadores e agora tem de lhes pagar bem. Os custos com pessoal, maioritariamente compostos pelos salários e prémios da equipa de futebol, foram de 37 milhões de euros, quando em 2007/2008 tinham sido só de 27 milhões. Portanto, a equipa do Benfica custa agora quase mais 40% do que no ano anterior.

É claro que isto é justificado com a sede de vitórias do clube da Luz e com o aforismo “sem ovos não se fazem omeletes”. Ora, para se fazer omeletes ao nível do que de melhor se faz lá fora, é preciso ter ovos de excepção. E para manter uma equipa competitiva, sobretudo em termos internacionais, é preciso ter grandes jogadores e pagar-lhes salários de nível… internacional.

Mas não se pense que basta obter bons resultados nas competições europeias para salvar as contas dum clube. Por exemplo, o Sporting no ano passado teve uma boa prestação na Liga dos Campeões e só conseguiu arrecadar daí 10 milhões de euros. Assumindo que o Benfica conseguia ganhar a mesma quantia, mais coisa menos coisa, teria sempre tido um resultado negativo de uns 25 milhões de euros.

Por isso, para recompor as contas, vai ser preciso vender jogadores, porque as restantes receitas não se alteram grandemente.

Já o grande Sporting teve um prejuízo mais à sua medida, coitadinho: 13 milhões de euros, que fazem falta em qualquer carteira.

Mas o Sporting, como é mais poupadinho do que os outros (excepto em relvados novos), tem algumas coisas a seu favor. Se não contarmos com as transferências de jogadores, o Sporting apresentou um resultado operacional positivo de 3 milhões de euros. Isto dá uma certa confiança de que, mesmo sem transferências, as contas se aguentam. Mas claro que os resultados desportivos não e é por isso que estamos em sexto lugar na Liga.

Esta contenção sportinguista é bastante evidente nos custos da equipa de futebol que só custou 24 milhões de euros, cerca de 20% acima do ano anterior. O aumento está em parte relacionado com os bons resultados atingidos na Liga do Campeões, que implicaram prémios mais elevados à equipa de futebol e que, infelizmente, foram pagos mesmo depois de termos levado duas cabazadas do Bayern.

E isto foi porque, mesmo com as cabazadas, o Sporting sempre encaixou uma receita de 10 milhões de euros pela participação nas competições europeias. Mas uma receita assim não acontece todos os anos – aliás, esta foi a maior dos últimos cinco. E esta época, por exemplo, a receita vai ser baixinha porque o Sporting está na Liga Europa, que rende muito menos dinheiro do que a Liga dos Campeões.

Portanto, para o Sporting, se este ano não houver vendas de jogadores, as contas deverão apresentar um resultado líquido ainda mais negativo do que no ano passado. E isto sugere que no futuro próximo, pelo menos, as contas só se vão aguentar com receitas extraordinárias provenientes de transferências.

Já podíamos ter vendido o João Moutinho e o Miguel Veloso há dois anos, quando eles valiam bastante, mas perdemos a oportunidade. Até o Djaló nos quiseram comprar e a gente disse que não…

Já o Porto, esteve melhor. Teve um resultado positivo de 5 milhões de euros em 2008/2009. Nos anos anteriores também esteve bem: 8 milhões em 2007/2008 e 2 milhões em 2006/2007.

E o Porto conseguiu isto, mesmo sendo aquele que mais gastou em salários e prémios com a equipa de futebol, num total de 44 milhões de euros. Lá está: bons jogadores ganham bem e esta deve ser uma das razões porque têm ganho mais vezes do que os outros.

Mas o problema do Porto é igual ao do Sporting e do Benfica. Só conseguiu este lucro de 5 milhões de euros porque teve, no mercado de transferências, um resultado positivo de 16 milhões de euros. Ou seja, se o Porto não tivesse conseguido um saldo positivo de 16 milhões de euros no mercado de transferências, teria tido um resultado global negativo, como os outros dois clubes.

Acho que isto mostra bem que os clubes portugueses, mesmo os míticos, para conseguirem fazer alguma coisa de jeito nas competições europeias, têm que ter custos que só conseguem satisfazer se venderem jogadores e se os venderem a um preço mais elevado do que os que os vêm substituir. Isto implica saber comprar barato e vender caro.

E quando é que se consegue vender caro? Em grande parte, é quando se tem boas prestações nas competições europeias. Se a prestação desportiva não for boa, é mais difícil vender, porque ninguém olha para os nossos jogadores. E isto faz com que o clube apresente prejuízos ao fim do ano e que, por isso, não consiga facilmente investir em jogadores de jeito, que sejam melhores do que os que lá estão. Isto é um ciclo vicioso de onde é difícil sair e acho que, infelizmente, é onde está o meu Sporting.

E é para onde pode estar a caminhar o Benfica, se não vender alguns dos jogadores que tem. Ou os vende agora em Janeiro, ou no fim do ano. Mas tem de ser já, enquanto os seus valores estão em alta. Há-que aproveitar enquanto dura.

Di Marias, Saviolas, Cardozos e os outros devem ser vendidos se houver uma proposta decente. Não sei se estão lembrados do belo negócio feito pelo Benfica quando vendeu o Nuno Gomes. Foram 17 milhões de euros por um jogador que foi para Itália marcar 11 golos em dois anos! É de negócios destes que o futebol português precisa.

E é isto mesmo que o Porto tem feito várias vezes. Veja-se bem o caso do Postiga, que foi vendido por 9 milhões de euros e que hoje vale menos do que um matraquilho. E também vendeu muitos grandes jogadores, como o Deco e o Ricardo Carvalho, que substituiu por outros tão bons ou melhores, como o Lucho ou o Pepe.

Por isso os clubes devem vender jogadores, independentemente da importância deles na equipa, desde que o valor da proposta seja decente, claro, para ajudar a minorar as perdas que têm todos os anos. Não devem fazer um esforço enorme para os manter no plantel, na esperança deles ajudarem a equipa a fazer ainda melhor figura no ano seguinte e de conseguir vendê-los pelo dobro.

Porque se no ano seguinte as coisas correrem para o torto, o que não é de estranhar, porque as nossas equipas não conseguem sempre estar na linha da frente do futebol europeu, o valor dos jogadores desce e têm de vender ainda mais jogadores e a preço de saldo.


[publicado originalmente em Magazon]


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