O diário de Jorge Jesus

Diário Jorge JesusO Mestre conversa com o seu melhor amigo

Então, querido diário, tudo bem?

Desculpa não vir aqui já há algum tempo para falar contigo e para desabafar contigo. Sei que deves estar chateado e tens razão. Mas isto foi só porque eu agora sou o treinador duma equipa mítica: o Benfica.

Desde que eu me tornei treinador deste grande clube ganhei ainda mais auto-confiança e muitas coisas mudaram para mim. Por exemplo, um clube grande, como é o caso do Benfica, permite-me falar tão bem como sempre tenho falado em conferências de imprensa ao longo destes anos todos mas, como eu te estava a dizer, a diferença agora é que tudo o que eu digo é visto por milhões de adeptos que tendem a concordar comigo. Agora menos gente manda boquinhas.

Agora têm todos mais respeitinho e quase nunca oiço dizer aquelas coisas tipo “volta mas é para a Amadora, Jorginho” ou “Jorge” e também agora são menos as vezes que dizem coisas do meu cabelo branco. Atenção, querido diário, que eu não estou a dizer que o cidadão comum e o adepto em geral me chamavam de velho, não é isso, mas é que havia sempre uns engraçadinhos que se metiam comigo por causa do meu ar descontraído e os cabelos da forma como eu os uso. Tu não sabes, querido diário, mas eu uso-os assim mais sobre o longo, num género relax, meio tipo praia, meio tipo campo e antes até usava o cabelo mais branco que hoje, mas agora dou-lhe um toque.

Mas, querido diário, sabes que eu às vezes parece que sou um bocado armado em bonzão, armado em garanhão, tipo o gajo que vai para a praia, nao é?, olhar para as gajas na praia, uns tremoços… umas pevides. Mas isso não é verdade, é só imagem. Por exemplo daquela vez que eu disse aos jornalistas que o futebol tem 5 momentos de jogo vieram logo dizer que eu só me estava a armar em bom, mas não foi nada disso.

Querido diário, talvez tu também não saibas, por isso eu vou-te dizer que estes 5 momentos de jogo são o ataque posicional e a transição defesa-ataque (ou contra-golpe). Pronto estes são os dois momentos _ofensivos_. Depois tem mais dois que é: a organização defensiva e a transição ataque-defesa que dantes, nao é?, a gente chamava de re-or-ga-ni-za-ção posicional defensiva. E depois há outro momento do jogo que ninguém no mundo disse, fui eu o primeiro a dizer, que é a estratégia posicional que é a bola parada. Pronto e as equipas têm que saber definir com isto. Têm que saber jogar com isto.

Querido diário, outra coisa que talvez eu ainda não te tenha dito é que o futebol não é uma ciência exacta. É uma ciência de cada um. E aqueles que têm mais ciência… sabem mais que os outros. Agora, para isto tudo, se não tiveres bom jogadores, não serve para nada.

Eu desculpa-me estar aqui um bocado a repetir aquilo que disse na conferência de imprensa, mas talvez não tenhas visto.

Ah mas querido diário isto era tudo só para te dizer, porque tu és a pessoa em quem eu mais posso confiar, que agora parece que as pessoas me respeitam mais. Pronto, também não é que dantes as pessoas se metessem comigo na rua porque eu acho que o adepto em geral sabe que eu sou da Amadora.

Mas pronto agora as pessoas dão-me mais ouvidos e isto é derivado ao facto que eu agora sou o treinador deste magífico clube mítico, o Glorioso Benfica.

Mas isto, também, digo-te já que o Benfica foi mesmo um bocado uma sorte. Pensa bem se eu tenho antes ido parar ao Sporting… agora se calhar estava aqui para te contar tristezas e não alegrias. E podes crer que se eles me tivessem convidado eu tinha ido! Sabia lá eu que um clube ainda mais mítico queria os meus serviços? E a gente no Sábado temos jogo contra o Sporting na casa dos gajos, que podia ser a minha casa, já viste?

Bem, ouve lá… por acaso nisso tive mesmo uma sorte do caraças.

JJ


[publicado originalmente em Magazon]


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