Jorge Jesus, O Mestre da Táctica

Jorge Jesus - Mestre da táctica

A extraordinária visão táctica de Jorge Jesus.

O jogo não começa bem para o Benfica. A perder 1-0 em pleno Estádio da Luz, a cabeça de Jorge Jesus começa a fervilhar, analisando milhões de tácticas em cada minuto. Ele é considerado o Mestre da Táctica.

Dizem que é mesmo assim tão bom tacticamente. Como um jogador de xadrez, Jesus consegue antecipar o efeito de cada uma dessas tácticas e o efeito da contra-táctica do treinador adversário. “Se eu fizer isto, ele faz aquilo. Não é bom. Se eu fizer aquilo, ele faz aqueloutro. Não serve.”

Então, com o Benfica a perder desde os 25 minutos de jogo, o que é que faz o Mestre da Táctica? Ele espera, espera… sem fazer nada. O tempo passa. 30, 40 minutos. O Guimarães continua em superioridade. Jesus continua a esperar. “Estou a baralhá-los a todos”, pensa o Mestre. “Estão feitos num oito.”.

Vem o intervalo. As hostes vimaranenses estremecem só de pensar no _Efeito Jesus_ ao intervalo. Nos balneários, temem, o treinador do Benfica vai operar uma qualquer recalibração na disposição em campo da sua armada, potenciando as qualidades superiores de Saviola, Di Maria, Ramires e Aimar.

Este medo de Jesus faz com que o treinador do Guimarães, que tem o simples nome de Paulo Sérgio, não consiga dizer muito aos jogadores “Malta, eu não vos vou dizer nada. Só sei que vem aí o dilúvio! Vai ser horrível! O Jesus vai revolucionar, ele é o Mestre da Táctica. Por isso, o melhor é ficarmos quietinhos. Vamos ficar na mesma, pode ser? Desculpem, não vos consigo dizer mais do que isto, não vale a pena. E agora, vá, vamos todos rezar. Dêem as mãos.”

No outro balneário, o Mestre da Táctica esfrega as mãos e sorri com malícia “Vou baralhá-los todos com esta. Vocês vão ver. Vai ser de Mestre. Vão dizer que eu sou melhor que o Mourinho.” Os seus pupilos estão claramente abananados, na presença de um ente quase divino. “Mestre, o que vamos nós fazer? Diga-nos!” Jesus olhava para aquelas 11 pequeninas criaturas com desdém. “Vocês não jogam nada, não prestam para nada. Se não for eu a dizer-vos o que fazer, vocês não ganham um jogo. A minha táctica para esta segunda parte vai estraçalhar completamente o adversário e é muito simples – nós não vamos mudar rigorosamente nada!”

Começa a segunda parte. A nova táctica promete, mas os jogadores do Benfica não conseguem ultrapassar a bem arrumadinha defesa minhota. Tudo na mesma. Passam 20 minutos. Como a táctica não resulta e o Benfica continua sem marcar, o Mestre tem de actuar mais uma vez. “Já só temos 25 minutos para marcar 6 golos. Tenho de fazer aqui uma alteração ainda mais extraordinária.”

Jorge Jesus surpreende, tirando um médio bom e colocando um avançado fraco. Paulo Sérgio nada pode fazer. “Por esta não esperava. É impossível prever cada acção do Mestre.”

Mas o Benfica não marca. Quinze minutos mais tarde, ainda a perder, o Mestre tira um segundo médio e põe mais um avançado. “OOOooohh!…” O estádio está ao rubro. “Por esta é que eles não esperavam. Cum camandro, sou mesmo o Mestre da Táctica.”

Mas os minutos continuam a passar e o Benfica continua a perder. “Tenho mesmo de fazer um coisa única. Uma coisa que baralhe completamente estes gajos. Já sei! Isso mesmo. Mesmo de Mestre: vou tirar um médio e pôr outro médio. Mas desta vez vou por um que ninguém conhece e isso é que vai dar mesmo cabo deles. Vai entrar aquele. Como é que ele se chama? O número 24. És médio, não és? Isso. Entra o 24!”


[publicado originalmente em Magazon]


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