André Villas-Boas, Chief Scout

Andre Villas Boas

Como avaliar a sua qualidade?

Scouting, ao que se sabe, é o que andou a fazer o André Villas-Boas enquanto foi adjunto do Mourinho. Andava sempre lá por fora, a ver adversários e, sobretudo, ‘a procura do miúdo-maravilha que poderia estar escondido não se sabe bem onde: debaixo duma folha, atrás de qualquer baliza, num bolso dum casaco velho, não interessa. Estava escondido. Escondido, mas a sonhar… a sonhar com o mundo do futebol. Onde estaria este miúdo-maravilha, tão raro e esquivo, que teimava em escapar a todo e qualquer scout, mesmo a um chief scout, como o André Villas-Boas?

O objectivo era encontrar este miúdo com jeito para a bola, ir calmamente até ao pé dele e, ao mesmo tempo que acendia um cigarro, dizer-lhe “Miúdo!… [forte passa no cigarro seguida de longa expiração para o lado e para cima] tu tens jeito para a bola”. Depois, era metê-lo numa mala, mandá-lo para Londres ou para Milão e, com sorte, claro, vê-lo crescer, tornar-se forte no sentido técnico-táctico e, finalmente, vê-lo florir, até se tornar num belo Caicedo.

Felizmente para o meu Sporting, o chief scout não o encontrou (ao Caicedo) e hoje temos o temível avançado a furar as redes adversárias como um verdadeiro Leão!

A propósito: quantos Caicedos não se terão escapado pelas mãos do nosso chief scout, como se fossem areia do deserto?… Quantos? Como se mede a qualidade dum chief sout? Pelos miúdos-maravilha que descobriu e meteu na mala? Ou pelos que deixou escapar?

E quando o chief scout encontra o que ele entende ser um miúdo-maravilha e o mete numa mala, a quem se deve atribuir o mérito pela futura aparição dum belo Caicedo? A este chief scout atento e tecnicamente competente, capaz de antever um brilhante desenvolvimento neste miúdo ou ao treino que posteriormente lhe é dado?

Um bom chief scout pode também ser aquele que nunca descobre miúdos-maravilha exactamente porque eles não o são. Se o local da prospecção for o Carregado, por exemplo, é bem capaz de não haver lá nenhum. Muita área verde, sim senhor, propícia à prática do futebol mas, ao mesmo tempo, muito vinho e baixa densidade populacional que resultam numa probabilidade bastante baixa de por lá haver diamantes por lapidar.

No entanto, para baralhar as contas ainda mais, nem isto é passível de ser confirmado sem que, de facto, um talento destes apareça. Só se pode dizer “nesta terra há talento” depois desse talento aparecer. Quando um talento destes aparece, algumas conclusões se podem tirar, porque alguém lá do Carregado pode sempre dizer: olha, eu cheguei a ver o André Villas-Boas a andar por aqui, naquela altura, e o gajo deixou escapar este Caicedo. Neste caso, sim, talvez haja alguns elementos que possam apontar para a incompetência dum chief scout.

No entanto, para provar a sua competência ia ser muito mais difícil, praticamente impossível, pelas muitas variáveis em questão.

Portanto, ninguém sabe. Ninguém sabe o valor do André Villas-Boas como chief scout. E nunca se vai saber.
E como o que lá vai, lá vai, deixa mas é estar, não faças perguntas e ele agora é treinador da Académica.


[publicado originalmente em Magazon]


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